quarta-feira, 30 de junho de 2010

A PEDRA SOBRE A PEDRA

28/06/2010
Em duas das minhas viagens pelo Espírito Santo, encantei-me com uma pequena pedra pousada em posição precária sobre uma enorme pedra, como se estivesse para cair a qualquer momento. Mas está lá, equilibrando-se há séculos. Até agora ninguém a derrubou. Um dia algum vândalo o fará! Infelizmente! Já sabemos que eles existem e adoram demolir, pichar e implodir. É sua marca registrada: passam destruindo e emporcalhando o que podem e como podem!



Mas, mesmo que seja derrubada, o mero fato de aquela pedra ter estado lá há tanto tempo, enfrentando a ação do vento e os tremores de terra, já terá sido uma catequese. Ruim será para o vândalo que a derrubar. Terá derrubado um monumento e não sei se haverá mérito ou justificativa para tamanho desequilíbrio.



A cúpula



Das mais de quinze vezes que passei por Roma, penso que pelo menos nove delas me levaram à basílica de São Pedro. Filmei, fotografei e meditei diante da colunata de Bernini e daquela cúpula. As colunas externas ao templo parecem dois braços abertos a acolher o povo católico e quem mais vier orar com o papa. Sobre elas repousam as imagens de inúmeros santos, como a dizer que eles nos abraçam e acolhem com a Igreja Católica.



Mas o que filmei e olhei diversas vezes foi a inscrição com letras de 1,80m que dão a volta na base da cúpula. Tu es Petrus et super hanc petram aedificabo ecclesiam meam et dabo tibi claves regni caelorum. (cf Mt 16,18-19 ) Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja e dar-te-ei as chaves do Reino dos Céus. Sendo católico é claro que acredito e dou valor ao significado daquela inscrição. Respeito quem discorda, assim como espero ser respeitado na minha visão de católico.



Que pedra, que nada!



Alguns questionam e outros aceitam que a basílica está construída sobre o túmulo de Pedro. Também há irmãos que questionam o papel do papa e da Igreja católica como pedras erguidas sobre a pedra fundamental que é Jesus. Mas para mim, que sou católico, esta é a leitura!



Simão filho de Jonas, Pedro, rocha, pedra, repousa equilibrando-se sobre a rocha forte que é Jesus. ( Mc 14,72) A base não é Pedro, nem é a Igreja, é Jesus:





E assim para vós, crentes, é preciosa, mas, para os rebeldes ela é a pedra que os edificadores reprovaram. Mas foi a pedra angular e pedra de tropeço e rocha de escândalo, para aqueles que tropeçam na palavra ( 1 Pd 2,7-8)



Nunca lestes nas Escrituras: A pedra, que os edificadores rejeitaram, essa foi escolhida como pedra fundamental; pelo Senhor foi feito isto, E é maravilhoso aos nossos olhos? (Mt 21, 42)



E beberam todos de uma mesma bebida espiritual, porque bebiam da pedra espiritual que os seguia; e a pedra era Cristo. (I Cor 10, 4)



Edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, de que Jesus Cristo é a principal pedra da esquina; (Ef 2, 20)



Como católico leio e vejo que, na basílica de São Pedro, o importante não o possível túmulo debaixo dela, mas o sacrário no lugar central. É lá que os católicos se reúnem. Muitas vezes à frente da basílica. O centro não é o túmulo. É o altar!



Mas na basílica o simbolismo é claro: sobre Cristo ergueu-se a Igreja que nele se equilibra fragilmente, há séculos. Somos humanos e em todas as missas pedimos no Kyrie e no Cordeiro de Deus, a piedade do Senhor. Para nós, o homem chamado Simão e apelidado Pedro teve que fazer isso. Errou, mas achou sua força e seu equilíbrio em Cristo e por ele deu a vida; segundo reza a Tradição, morreu crucificado de cabeça para baixo, por entender que não mereceria morrer de cabeça erguida como seu Senhor!



É desse Jesus, pedra angular do Reino de Deus ( Ef 2,20; 1 Cor 3,12) rocha sólida e sobre o qual equilibram-se precariamente as comunidade de fé, que se ocupa a cristologia católica. Não é bom que balancemos ao saber do vento sobre o Cristo que nos sustenta, porque, como no caso da pedra sobre pedra, corremos o risco de rolar colina abaixo.



Outros conceitos



Outras igrejas têm suas interpretações. Não seriam outras igrejas se não as tivessem. Para elas, Pedro não é pedra e os católicos não se assentam sobre a pedra Jesus. Eles, sim! O discurso é de confronto! Para muitas, nós católicos já rolamos ladeira abaixo. Mal sabem elas que cada nova igreja nasce portadora desse frágil equilíbrio e que, se não sossegar o facho e não achar seu ponto de equilíbrio em Jesus, vai rolar mais depressa do que nós. A história do cristianismo é inconteste. Milhares de novas pedras não conseguiram ficar muito tempo sobre a rocha Cristo... Valeu mais o carisma e a palavra de algum ousado pregador do que Jesus, o fundamento!



A teologia da Pedra Viva e das pedras sobre a pedra viva passa pelo ecumenismo. Se não o fizer, acabará rolando para alguma fenda da História. A palavra é solidariedade, que vem de solidez: sólidos em grupos, solidários em Cristo!


http://www.padrezezinhoscj.com/

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