segunda-feira, 21 de junho de 2010

Utilitarismo X Economia de mercado

Igreja condena a lógica utilitarista, não a economia de mercado

ROMA, sexta-feira, 18 de junho de 2010 (ZENIT.org) - Visando a aprofundar o tema da Doutrina Social da Igreja Católica e suas implicações na economia, publicamos parte da conferência proferida pelo professor Giovanni Bazoli na ocasião da cerimônia de lançamento do livro "Chiesa e capitalismo" ("Igreja e capitalismo", Morcelliana 2010), realizada em 8 de junho no Centro Congressi Europa da Universidade Católica de Roma.

Em seus pronunciamentos, o Magistério da Igreja Católica tem sempre demonstrado grande atenção, e por vezes até mesmo preocupação, em assumir uma linha de continuidade, de não ruptura, entre os novos ensinamentos e os precedentes, isto é, a tradição. Isto pode ser compreendido pelo papel crucial desempenhado pela tradição no âmbito da história do catolicismo. Veja por exemplo a história e as reações referentes à publicação da encíclica Humanae Vitae.



Mesmo quando a leitura dos "sinais dos tempos" sugere à Igreja uma virada, esta é apresentada como uma "renovação" na continuidade. E a nova impostação é sempre suportada e acompanhada de uma referência aos ensinamentos precedentes. Este aspecto de continuidade está claramente presente na Caritas in Veritate.



Permitam-me sublinhar o grande significado que deve ser reconhecido nesta atenção especial por parte de Bento XVI ao magistério de Paulo VI, na medida em que evidencia uma aproximação do ensinamento de Bento XVI em relação ao pensamento do grande Papa da Bréscia.



Cumpre-me ressaltar a ligação - que não é explicitada na Caritas in Veritate, mas que, como demonstrarei, não é menos essencial - com a Centesimus Annus. O fato é que a Populorum Progressio, ainda que antecedendo à Caritas in Veritate em quarenta anos, inspirou-a em vários aspectos (na antecipação de uma visão global do desenvolvimento econômico, bem como na abordagem histórico-humanística do ensinamento social), mas a Centesimus Annus representa o pressuposto sem o qual a Caritas in Veritate não poderia ter sido elaborada: uma passagem crucial na evolução da Doutrina Social da Igreja. A Centesimus Annus constituiu o marco de uma virada: uma daquelas viradas que mencionei no início, que são apresentadas pelo Magistério como renovações na continuidade. Até então, de fato - ou talvez até o colapso do império soviético - a linha da Doutrina social tinha seu fio argumentativo baseado num método predominantemente dedutivo, que obrigava a remontar aos princípios originários de cada sistema, assumindo, ao longo do século XX, um olhar crítico distanciado, tanto do sistema capitalista quanto do coletivista.



Com a Centesimus Annus, ao contrário, passa a ser plenamente reconhecida a capacidade, historicamente demonstrada pela economia de mercado, de obter melhores resultados no que se refere à eficiência e à elevação das condições de vida dos povos. A livre iniciativa econômica privada e o papel do mercado e da livre concorrência recebiam, com o documento de João Paulo II, plena legitimação.



Foram muitos, então, os que saudaram tal virada, convencidos de que desta forma abria-se à Igreja uma porta à estrada fecunda de uma reflexão crítica sobre o sistema de mercado, conduzida, por assim dizer, do seu interior: isto é, dirigida não mais ao questionamento dos princípios teóricos dos quais o sistema é derivado, mas a uma denúncia construtiva, destinada a corrigir algumas de suas disfunções.



É precisamente isto o que se verifica agora com a nova Encíclica de Bento XVI. É exatamente o que esperávamos: que a Igreja evidenciasse as deficiências do modelo de desenvolvimento econômico adotado ao longo das últimas décadas, que algumas vozes dissonantes já denunciavam há tempos. Isto demonstra, como sustentei no início, a estreita ligação entre a Caritas in Veritate e a Centesimus Annus. Gostaria de afirmar, de maneira irresoluta, que isto serve também para fazer justiça a algumas interpretações distorcidas do texto, segundo as quais as instabilidades recentemente demonstradas pelo sistema atual e as questões por ele impostas colocariam em cheque a economia de mercado, ao invés de propor sua revisão ou correção.



Ao contrário, o que se pede é que se saiba "distinguir com clareza e objetividade os aspectos positivos das implicações negativas do capitalismo experimentado ao longo dos últimos anos".



De fato, é indiscutível que o vertiginoso desenvolvimento econômico recentemente registrado em algumas regiões, com a abertura internacional dos mercados, produziu resultados importantes e positivos - não apenas para "os mais ricos" -, mas se mostrou igualmente incapaz de realizar o objetivo de uma distribuição mais equitativa da riqueza. As desigualdades econômicas, não apenas entre países, mas também internas, não foram atenuadas.



Estudos recentes mostram que, mesmo nos EUA, às vésperas da crise, verificava-se uma enorme disparidade na distribuição de renda - exatamente como nos momentos que antecederam a crise de 1929. Na China, ao poder econômico e bem-estar de uma minoria se contrapõe à condição de pobreza na qual vive um bilhão de seus habitantes.



As palavras da Caritas in Veritate denunciam os limites de uma economia global totalmente subordinada a uma lógica utilitarista, que legitima e favorece a priorização dos interesses individuais em detrimento do bem comum, que concentra seus objetivos todos no presente e no imediato, comprometendo a exigência de se planejar um desenvolvimento sustentável.



Por estes motivos, o Pontífice manifestou a expectativa de uma "nova e aprofundada reflexão sobre o significado da economia e de seus fins, bem como uma revisão profunda do modelo de desenvolvimento, para que sejam corrigidas as deficiências e distorções".

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