sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Momento triste e de terror no Congo (África)

Noite de terror

Tínhamos terminado de rezar a oração da noite. 20h30m. 3 de Agosto de 2010.

Quando íamos saindo da capela, três bandidos, bem armados, nos obrigaram a entrar de novo e começaram a tirar, em primeiro lugar, os telefones celulares ( dois somente, pois os noviços não têm celular) e mesmo algumas jaquetas. Ajuntaram todos os noviços perto do altar. A mim deixaram no banco atrás. Ninguém podia falar. Eles falavam kinande e swahili. A um noviço que tinha algumas unidades ameaçaram com o punhal exigindo o telefone, que ele não tinha.

Sentado no banco de trás, rezava o terço pedindo a Deus, à Virgem Maria e ao Padre Dehon que nos protegesse. Aconselhava os noviços a se manterem calmos e a rezarem.

Dirigiram-se a mim, e através de um intérprete, exigiram dinheiro. Conduziram-me ao meu quarto. Tive de abri-lo. Insistiam : « dinheiro, dinheiro.. » Eu dizia : « não tenho mais. » Dei para eles o que ainda tinha na gaveta : 5 dólares e alguns francos congoleses. O chefe, olhou ; ficou furioso, jogou o dinheiro na minha cara, e com a espingarda no meu peito dizia : « um padre jà morreu porque não quis entregar o dinheiro ». Eu repetia : « não tenho mais nada. » Enquanto isso, dois outros bandidos revistavam meu quarto. Reviraram tudo. Eram ignorantes. Um pegou minha câmara fotográfica, mas não sabia do que se tratava. Olhava curioso, guardou-a na sua sacola e mais tarde perguntou a um noviço que fazia as vezes de intérprete : quanto valia. Respondi que mais ou menos 300 dolares. Ficou contente. Guardou e levou para si. Sem os acessórios naturalmente. Enquanto isso, o chefe, ordenou-me que deitasse de costas para cima e colocasse os braços para trás. Ali começou o suplício, a tortura física. Com a corda que ele arrancou de uma cortina do quarto, amarrou-me fortemente. Eu gritava de dor. Os noviços que estavam presos na capela escutavam meus gritos. E cada vez ele apertava mais as cordas. Eu gritava. Os noviços pensavam : eles estão matando o padre mestre ; depois eles vão nos matar também. Finalmente terminou de apertar, pegou-me pelo colarinho e me levantou. Sempre com ameaça. « Não estou brincando. Quero dinheiro ». Repetia sempre a mesma coisa : « não tenho mais, não tenho mais ». Depois de saquear o quarto, levaram-me para a frente da capela. Ali soltaram um pouco as cordas. Que alivio ! Enquanto isso, eles pegavam dois ou três noviços e os levavam para os seus respectivos quartos, onde roubavam tudo o que podiam. Depois os trancavam em seus quartos. Assim até passarem os 26 noviços. Limparam o que podiam.

Depois de 2 horas de tormento, eles pediram o vinho de missa. Tinha metade de uma garrafa. Eles levaram.

Saíram da capela e me disseram : vai dormir.

Graças a Deus, eles não tentaram profanar o sacrário. Estava firmemente decidido a não permitir tal profanação, mesmo sofrendo as ameaças de punhal e de espingarda.

Segundo os noviços o grupo era numerosíssimo. Nossa casa estava rodeada de bandidos bem armados.

Não eram militares. Quando chegaram, imobilizaram o guarda nocturno e perguntaram imediatamente se havia militares na casa.

Os noviços ficaram traumatizados. Mantive-me calmo durante todo o tempo, fazendo silenciosamente minhas preces.

Depois do assalto, reuni os noviços na capela para agradecer a Deus, à Virgem Maria e ao P Dehon a graça de nos preservarem com vida.

Com apenas um telefone conseguimos entrar em contato com Kisangani. Kisangani chamou as autoridades de Butembo. A resposta : estamos a caminho. Não chegaram até o dia seguinte. Somente dois militares, de moto, vieram aqui, às 8 horas da manha do dia seguinte, para fins de estatística de assaltos.

Infelizmente essa é a nossa realidade : Butembo està nas mãos dos bandidos ! Vive-se aqui uma guerra cruel : o pobre povo, sem proteção, contra os marginais, os bandidos bem armados, e às vezes mesmo até contra os próprios militares.

A tempo : quando deixaram nossa casa, de noite, os assaltantes encontraram um pobre homem. Esse resistiu ao assalto. Eles o mataram.

Butembo, 4 de agosto de 2010

P. Osnildo Carlos Klann, scj

Mestre de noviços

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